… e nem flor nascida no mato do desespero
nem rio correndo para o mar do desespero
nem zagaia temperada no lume vivo do desespero
nem mesmo poesia forjada na dor rubra do desespero.
(…) ó velho Deus dos homens
deixa-me ser só tambor.

… e nem flor nascida no mato do desespero
nem rio correndo para o mar do desespero
nem zagaia temperada no lume vivo do desespero
nem mesmo poesia forjada na dor rubra do desespero.
(…) ó velho Deus dos homens
deixa-me ser só tambor.

Pois é.
Nessas paragens, as pernas e braços padecem das graves moléstias dezembrinas: estão a todo tempo esmerando-se em desenhos no ar, num movimento único, de tão lento e ondulante, como se mesmo de pé, estivesse o corpo deitado no lambanceiro sonho de travesseiros e lençóis: o suor encardido do corpo, escorrendo pelas curvas das juntas, do detrás dos joelhos, das nádegas, por entre os seios.
Ai ai. Todo desejo do corpo fosse esse presságio de quando vejo o limoeiro… aí eu seria feliz. Porque o limão nasceu pra limonada como água pra sede… Acontece que os meus fracassados braços e pernas, que padecem nessa estiagem,,, nessa rede amarela,,, concordam na impossibilidade de sacudir levante.
Enquanto o desejo prossegue desejo.
(e quase miragem. não fosse a preguiça até pra adoecer do pensamento.)

Vive dentro de mim
uma cabocla velha
de mau-olhado,
acocorada ao pé do borralho,
olhando pra o fogo.
Benze quebranto.
Bota feitiço…
Ogum. Orixá.
Macumba, terreiro.
Ogã, pai-de-santo…
Vive dentro de mim
a lavadeira do Rio Vermelho,
Seu cheiro gostoso
d’água e sabão.
Rodilha de pano.
Trouxa de roupa,
pedra de anil.
Sua coroa verde de são-caetano.
Vive dentro de mim
a mulher cozinheira.
Pimenta e cebola.
Quitute bem feito.
Panela de barro.
Taipa de lenha.
Cozinha antiga
toda pretinha.
Bem cacheada de picumã.
Pedra pontuda.
Cumbuco de coco.
Pisando alho-sal.
Vive dentro de mim
a mulher do povo.
Bem proletária.
Bem linguaruda,
desabusada, sem preconceitos,
de casca-grossa,
de chinelinha,
e filharada.
Vive dentro de mim
a mulher roceira.
– Enxerto da terra,
meio casmurra.
Trabalhadeira.
Madrugadeira.
Analfabeta.
De pé no chão.
Bem parideira.
Bem criadeira.
Seus doze filhos.
Seus vinte netos.
Vive dentro de mim
a mulher da vida.
Minha irmãzinha…
tão desprezada,
tão murmurada…
Fingindo alegre seu triste fado.
Todas as vidas dentro de mim:
Na minha vida –
a vida mera das obscuras.

Não és bom, nem és mau: és triste e humano…
Vives ansiando, entre maldições e preces,
Como se a arder no coração tivesses
O tumulto e o clamor de um largo oceano.
Pobre, no bem como no mal padeces;
E rolando mum vórtice insano,
Oscilas entre a crença e o desengano,
Entre esperanças e desinteresses.
Capaz de horrores e de ações sublimes,
Não ficas com as virtudes satisfeito,
Nem te arrependes, infeliz, dos crimes:
E no perpétuo ideal que te devora,
Residem juntamente no teu peito
Um demônio que ruge e um deus que chora.
Olavo Bilac. Dualismo
Lulu, certamente você não se lembrará que completo 22 anos amanhã… Mas eu precisava dizer que nada mudou.

quando eu pensei que o Sr. F. de tal já havia me desocupado o barracão…
Eu disse, repeti que não posso mais com esses olhos marrons. Eu quero antes me suicidar, mas provavelmente não vou. Porque antes mesmo de morrer de amor, eu quis morrer com os pés inchados de sambar. Eu quis tomar uma bala perdida numa noite de sexta-feira e de samba, me acabando por lá. Pois se se morre de amor, de sambar também se morre. Só que deste jeito o desgraçado se previne da miséria que é morrer de coração entregue.
Mas esses olhos marrons vêm sambar atrás…
mais bonitos que os teus olhos, menino, só teus olhos naufragados,viu. Aí eu não posso mais.

Do irreparável gosto pela vilania: olhos percrustadores de F, malevolidade dos olhos percrustradores de F desfarçada em beleza e meninice. Odor da antiga casa, apodrecendo, sem luz. Escuridão que vem de lá, quando por lá passo e sinto a sombra do mau-agouro passar rente, mas direto. Azul acinzentado do reflexo dos olhos de P no céu desses dias em que fico na janela. Calor, de fundir moleira… naquela lentidão. Deste moço, o que é desengonçado nele - tropeço, timidez, essa variação na voz, solidão. Mente insana, palavra torta nas broncas/abraços do melhor amigo, o gordinho, o jeito dele de expressar bem-querência. O som dessa palavra… querência… e também de cruel, tiroir, lumière, dos diminutivos da língua espanhol, do escarro da língua francesa…
E do desgosto pelo olhar oblíquo desse sujeito que apareceu por aqui dia desses: um olho claro outro escuro (?!?) a sombrancelha esquerda levantada… a testa franzida, das coisas mais feias de se ver no homem de 40 anos. A ruga que vai fazendo… e vai ficando, prenúncio da face envelhecida, da transitoriedade própria dessa feição perfeita da madureza dos 40 anos. Esse outro jeito de percrustrar, com os olhos em desconfiança. A piada exagerada. essa cacofonia. a palavra cacofonia. O sujeito desinteressante que não sabe a hora de calar seu inventário do tédio e do boceeejo…

O inventário fútil (expressão cunhada por Roland Barthes) é uma espécie de texto fútil e adorável praticado na França. é o tal do “j’aime/je n’aime pas” com que se definem os caracteres das personagens do filme o fabuloso destino de Amélie Poulain, o “teletubes” para maiores de dez anos. Consiste em descorrer sobre as diversas sensações que experimentamos na vida a partir do simplório esquema do gosto/não gosto. Assim, o gênero permite dispor lado a lado elementos extremamente distintos, fluindo facilmente de um ao outro, pelo singelo prazer de, perdendo-se entre gostos e desgostos, jamais encontrar fim.
O curta-metragem acima é um exemplo graciosíssimo de inventaire futile. (Atenção especial para as gotas que caem pra cima, encantadora escatologia do Jean-Pierre Jeunet)
No próximo capítulo, o inventaire futile da Adelaide.
Faça você também o seu inventário fútil. Tente não falar sobre o que você nunca tenha experimentado… afinal, para os raros e não-fenomenólogos leitores desse blogue de miudezas, Adelaide aqui só tem uma.


Essa região secreta, essa solidão onde o seres – e as coisas – se refugiam, é que dá tanta beleza à rua: por exemplo, estou sentado no ônibus, só me resta olhar para fora. O ônibus se precita pela ria em declive. Sigo bem rápido para não ter a possibilidade de me demorar num rosto ou num gesto, a velocidade exige de meu olhar uma velocidade correspondente, pois não há nem um só rosto, nem um só corpo, nem uma só atitude preparados para mim: estão nus. Registro: um homem muito grande, muito magro, encurvado, peito cavado, óculos, o nariz comprido; uma dona de casa que caminha lentamente, pesadamente, tristemente; um velho que não é um velho bonito, uma árvore solitária, ao lado de uma árvore solitária, ao lado de outra…; um empregado, outro,uma multidão de empregados, uma cidade povoada de empregados encurvados, todos reunidos no detalhe que meu olhar registra: uma ruga na boca, ombros caídos… cada uma de suas atitudes, em razão talvez da velocidade dos meus olhos e do veículo, é esboçada tão depressa, tão rapidamente apreendida em seu arabesco, que cada ser me é revelado no que tem de mais novo, de mais insubistituível – e é sempre uma ferida – , graça à solidão onde essa ferida se coloca e que eles mal conhecem , mas para onde todo o seu ser aflui. Atravesso assim uma cidade desenhada por Rembrandt, onde cada um e cada coisa são apreendidos numa verdade que se distancia muito da beleza plástica. A cidade – feita de solidão – seria admirável de vida, não fosse meu ônibus cruzar com um casal de namorados atravessando uma praça: eles se seguram pela cintura e a moça inventou esse gesto encantador, pôr e tirar sua mãozinha do bolso de trás do blue-jeans do rapaz, gesto gracioso e afetado que vulgariza uma página inteira de obras-primas.
A solidão, como a entendo, não significa condição miserável, mas realeza secreta, nem incomunicabilidade profunda, mas conhecimento mais ou menos obscuro de uma singularidade inatacável.
In: Genet, Jean. O ateliê de Giacometti.